OPINIÕES
Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2005
KONG vs. KONG




Aproveitando o embalo dado pela ida ao cinema para ir assistir à versão de King Kong de Peter Jackson, avancei finalmente para a visão do filme original (cujo DVD se mantinha quase esquecido numa prateleira há uns bons meses, sem que eu me decidisse a pegar nele). E a verdade é que, apesar de partir de uma clara situação de desvantagem (equivalente à diferença entre a sala 4 do Monumental e a minha televisão com ecrã de 38 cm e um sistema de som comprado no Lidl), o filme de 1933 de Cooper e Schoedsack, aguenta-se muito bem. Ou melhor dizendo, ganha em toda a linha.


É verdade que os efeitos especiais e o trabalho de direcção artística no filme de Peter Jackson são excepcionais (este Kong de Jackson é um prodígio técnico, ainda melhor que o Gollum do "Senhor dos Anéis") mas a versão original tem o encanto de um verdadeiro série B de antigamente, que nenhum filme hoje consegue repetir. Veja-se a forma como o filme original, com uma notável economia narrativa, consegue contar quase a mesma historia do que Jackson em metade do tempo, e, ainda assim, manter uma carga de exotismo, e mesmo de magia, que a versão de hoje não consegue.


E depois há a decisão de Jackson em transformar King Kong numa história de amor (na versão original a atracção de Kong pela miúda loura funcionava acima de tudo no campo do desejo, e, o que em último caso tornava tudo ainda mais dramático, tratava-se de um desejo não correspondido). Reconheço que é esta opção que transforma o filme de Jackson em mais do que um simples upgrade tecnológico do filme original, mas há alguma coisa de primordial que o primeiro filme tinha, que se perde por este caminho.


Os defensores deste novo Kong poderão avançar com o argumento Naomi Watts para fazer pender a balança para o King Kong de Jackson, e embora eu neste ponto assine por baixo, tenho que reconhecer que os gritos de Fay Wray não lhe deixam de dar o seu encanto (e fosse este o principal factor de avaliação, e por favor não pensem que estou de forma alguma a minimizá-lo, então o vencedor teria que ser a versão já quase esquecida de 1976, de John Guillermin, com uma Jessica Lange ainda em princípio de carreira. Mas acho que começo a afastar-me um pouco da questão cinéfila da coisa).


Em último caso, a coisa resume-se ao macaco. E por incrível que pareça, entre o prodígio digital de hoje e a massa negra (aquilo será plasticina ?), animada em stop-motion, do Kong de 33, eu opto por este.


Concordo que ao nível da interpretação, o Kong digital de Jackson bate aos pontos o original, principalmente tendo em conta que este basicamente se limita a abrir a boca e a revirar os olhos (mas poder-se-á dizer em sua defesa que se trata de uma técnica de interpretação mais minimalista, um pouco na linha de um Bill Murray por exemplo) mas ao tornar Kong mais realista (se é que se pode falar de realismo quando se está a tratar de um gorila de 7 metros de altura) a tecnologia acaba por lhe retirar a carga mística que o Kong original tinha. A verdade é que o Kong de Jackson é só um gorila grande, enquanto que o Kong original era muito mais do que isso, era como que um buraco negro onde é possível corporizar todos os medos.


Em última análise, esta luta de Kongs trata-se de facto de uma batalha desigual, entre um comum blockbuster dos dias de hoje (ok, um blockbuster melhor que 90% dos outros blockbusters que para aí andam, mas mesmo assim não mais do que isso) e um filme mítico da historia do cinema, que mais de 70 anos depois da sua estreia continua a manter o mesmo carisma. E que continuará sem dúvida a ser a versão definitiva desta história. Deixem só a poeira do marketing acalmar. E daqui a 70 anos falamos outra vez sobre isto.




por Sérgio




realizado por Rita às 13:21
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