OPINIÕES
Sexta-feira, 12 de Novembro de 2004
DocLisboa 2004: Documentários de sala cheia

Um casal palestiniano que necessita de ir a um hospital, uma ambulância do outro lado à sua espera. Entre eles um jipe israelita totalmente blindado que não lhes permite a passagem. Os palestinianos perguntam porquê. Do interior do jipe uma voz metálica responde-lhe apenas que não podem passar. E há uma câmara que filma tudo isto. E Isto é a curta metragem de documentário “Detail” de Avi Mograbi. E num simples momento muito do que é a questão palestiniana hoje, está ali.


Este foi um dos vários documentários apresentados na edição de 2004 do DOCLisboa que tentaram mostrar os acontecimentos na Palestina que não são noticia de primeira página nos meios de comunicação mundiais, e mais concretamente, o dia-a-dia da ocupação israelita da Palestina. Documentários como “Checkpoint” de Yoah Shamir, documento que acompanha os rituais (de humilhação) a que os palestinianos são obrigados nos postos de controlo israelitas espalhados pelo território palestiniano. Ou “Le Mur” de Simon Bitton, sobre a construção do Muro israelita que separa Israel da Cisjordania (e que pelo caminho vai retalhando ainda mais este território) e “Newstime” de Azza Al-Hassan, sobre o dia-a-dia de jovens palestinianos atiradores de pedras (este acompanhado pela curta-metragem (de ficção) de Elia Suleiman “Cyber Palestine” e que contou com a presença do realizador, que respondeu a algumas questões do público após a sua exibição). Provenientes dos dois territórios em conflito (“Checkpoint”, “Detail” e “Le Mur” são produções israelitas, “Newstime” e “Cyber Palestine” palestinianas) e de qualidade variada, os dois primeiros muito bons, os restantes nem por isso, são coincidentes no entanto a mostrar como o lado mais forte humilha o lado mais fraco, e ao fazê-lo estão a demonstrar como a ocupação israelita só piora tudo, porque fomenta o ódio dos palestinianos em relação a Israel, porque desumaniza os israelitas na sua relação com os palestinianos, porque torna impossível o entendimento entre as duas partes.


Mas o DOCLisboa não se ficou pela Palestina. Passou também por Espanha, através da secção “Foco em Espanha”, dos quais pude ver “La Pelota Vascã” do Julio Medem (realizador alvo de culto pessoal por parte do autor destas linhas) excelente documentário sobre a questão basca, que ouve e expõem as várias faces do conflito basco (ouvindo todos ou quase todos, do lado independentista e espanholista, familiares de etarras presos e familiares de vitimas de terrorismo, políticos, académicos, representantes da sociedade civil, etc...). Assente quase exclusivamente nas declarações dos diferentes entrevistados; num perfeito exercício de montagem e de utilização dramática da banda sonora, consegue mostrar toda a complexidade da questão basca e de como ela não pode ser reduzida a uma situação de bons contra maus (e talvez por isso tenha sido tão atacado pelo governo espanhol da altura, liderado por Aznar e pelo seu PP, aquando da sua estreia); “Asaltar los Cielos” de Lopez-Linares e Royo, biografia do homem que assassinou Trotsky, mas também dos ambientes sociais e políticos por onde passou (desde o movimento operário catalão anterior e durante a guerra civil espanhola, à União Soviética de Estaline e posteriormente de Brejnev, os círculos trotskystas no México, etc...) e “Cravan vs Cravan” de Isaki Lacuesta documentário sobre Arthur Cravan, poeta dadaista, pugilista, personagem “bigger than life” das esferas intelectuais europeias do início do século XX, objecto extremamente interessante que cruza o documental com a ficção, através de um narrador/investigador que se vai assumindo, com o desenrolar do documentário como um alter ego do próprio Cravan.


Também uma verdadeira personagem é Abel Ferrara, realizador nova iorquino que é o foco do documentário “Abel Ferrara: Not Guilty”. Produzido para a série “Cinema de Notre Temps” do canal arte-tv (o tal que a TVCabo decidiu retirar do pacote básico, mas que pelo que parece ninguém, com excepção do Prado Coelho, parece sentir grande falta, mas se se pode ver bons documentários em festivais tão na moda quem é que sente falta de os ver na televisão) este documentário limita-se a acompanhar um Ferrara absolutamente eléctrico (e se ele é assim no seu estado normal, como seria nos seus tempos de junkie) nas suas deambulações pela cidade de Nova Iorque. Simplesmente genial.


O DocLisboa também passou pela América do Sul, através de documentários como o português “Buenos Aires Hora Zero” ou o brasileiro “O Prisioneiro da Grade de Ferro”. O primeiro dá-nos, sob o pretexto macguffiano da procura do último descendente dos primeiros colonos portugueses na América do Sul espanhola, um retrato da cidade de Buenos Aires e das personagens que a compõem. Objecto interessante, especialmente quando se afasta da narração off do realizador e se deixa perder na cidade e nos seus habitantes, e com um ‘final twist’ (embora não propriamente surpreendente) quase à Shyamalan. Quanto ao documentário brasileiro, segue o dia-a-dia da prisão brasileira de Carandiru, que era, até a sua demolição, a maior prisão da América Latina. Feita com base em registos vídeo captados pelos próprios prisioneiros, o melhor que se lhe dizer é que consegue transportar-nos de facto, durante duas horas, para o interior da própria prisão.


E pronto, junta-se-lhes uma dose q.b. de gente e de tempo gasto nas filas para comprar bilhetes e temos o que foi o meu DOCLisboa 2004.



por Sérgio



realizado por Rita às 14:19
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