OPINIÕES
Sexta-feira, 17 de Setembro de 2004
Descobrir Chaplin



Confesso: até há poucos dias Charlie Chaplin era para mim apenas um conjunto de imagens dispersas, um pastiche de filmes, sem que tivesse visto integralmente qualquer uma das suas obras. Estreei-me com “O Grande Ditador”, a sua primeira cedência ao sonoro, treze anos após o final da era do cinema mudo.


Em 1940, quando este filme saiu, os Estados Unidos ainda não estavam envolvidos na II Guerra Mundial, por isso o tom sarcástico e jocoso denota a distância a que se estava da realidade, no porto seguro da terra das oportunidades. Teria sido improvável a realização na Europa de um filme como este naquela altura, e desde esse momento essa abordagem tornou-se completamente impossível. A capacidade de ridicularizar exige que estejamos a suficiente distância física e temporal do evento, e por isso corporal e emocionalmente longe.


Numa alusão muito pouco disfarçada a Hitler na personagem do ditador de Tomania, Adenoid Hynkel, a Mussollini na de Benzino Napaloni, ditador de Bacteria, e a Goebels na personagem do Director de Propaganda Garbitsch, este filme, sobretudo visto agora à distância dos acontecimentos, é pleno de sentido de tempo e de crítica. Aliás, a crítica em Chaplin será a mais coerente das referências. Aqui, Chaplin aborda o fascismo e o seu duplo papel de ditador e barbeiro judeu marca o seu posicionamento na defesa da igualdade do homem independentemente da sua origem ou das suas crenças.


Conta-se que Chaplin decidiu incluir a cena final do discurso do barbeiro judeu quando soube que a França tinha sido invadida. O mesmo Chaplin afirma que se tivesse tido noção da extensão das atrocidades nazis não teria sido capaz de fazer pouco da sua loucura homicida. Quando o filme foi lançado, Hitler baniu-o de todos os países ocupados, mas acabou ele mesmo por ceder à curiosidade e consegui adquirir uma cópia através de Portugal. Teria sido no mínimo interessante saber a sua reacção.


Este filme está pleno de inteligência, atributo que caracteriza o humor de qualidade. Não só nos textos e brincadeiras com as palavras, mas também no ridículo exagero das situações, na imaginação dos detalhes. A acérrima competitividade entre os dois ditadores é hilariante. Sem dúvida que o riso, como arma de arremesso, como catalisador do pensamento e da reflexão, como instrumento da verdade, tem um poder tremendo.


E Chaplin é exímio nessa inteligência, na expressão, na comunicação, no humor, no trabalho que faz dos sentimentos. Um trabalho sem dúvida marcado pela sua longa experiência nos filmes mudos, em que um actor é todo um corpo. Recrimino-me a mim mesma por ter passado todo este tempo na ignorância. Sobretudo porque uma semana depois vi o “Tempos Modernos” (1936).


Agora não uma crítica política, mas social. À indiferença com que a sociedade trata cada indivíduo na sua ambiciosa escalada pelo poder. Como um simples número, ou uma simples peça na engrenagem, sem necessidades, sem desejos, sem sonhos. E a paradoxalmente constante tentativa do ser humano em acreditar e lutar pela felicidade.


Este era para ter sido o primeiro filme totalmente falado de Chaplin, mas em vez disso, e à excepção das canções no restaurante, o som é usado apenas quando provém de aparelhos mecânicos, reforçando o tema da desumanização da sociedade tecnológica. Esta é também a última aparição do personagem do Vagabundo, e Chaplin deixa-o pela primeira vez falar em frente à câmara, tendo insistido, no entanto, que a sua linguagem fosse universal. Daí que a letra da sua canção fossem apenas sons sem sentido, mas cuja história era facilmente compreensível através dos seus gestos.


Tive também oportunidade de descobrir que Chaplin escreveu a música para este e para todos os seus outros filmes.


Após este MEA CULPA, apenas posso prometer continuar a investigar. Porque manter a mente e o coração abertos é um dos grandes segredos para que possamos ser surpreendidos pela vida.




CITAÇÕES:


“A day without laughter is a day wasted.”


“I remain just one thing, and one thing only, and that is a clown. It places me on a far higher plane than any politician.”


“Life is a tragedy when seen in close-up, but a comedy in long-shot.”





realizado por Rita às 08:04
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