OPINIÕES
Segunda-feira, 6 de Setembro de 2004
Dependências...

Suponho que não deveria confessar as minhas fraquezas num espaço público, um pouco à laia das sessões de auto-crítica durante a Revolução Cultural chinesa, sob o perigo de insuflar a minha culpa e de dar armas aos meus “inimigos”. Mas acredito também que é hora de explicar um pouco, a quem por acaso passe um dia por este espaço, o tipo de relação que eu tenho com o cinema.


A motivação para esta expiação prende-se sobretudo com o momento actual, em que existem onze filmes em cartaz que eu gostaria de ver e o tempo de que disponho espreme-se entre a necessidade de trabalhar para pagar as contas, comer (pouco, claro, para poder ter algum dinheiro para me enfiar numas quantas salas de cinema), estar com os amigos e a família, e aproveitar os últimos raios quentes de um Verão que está prestes a depor as armas.


Sim, sou cinemólica, cinemo-dependente, cinemo-obsessivo-compulsiva, o que lhe quiserem chamar. Não é algo de que me orgulhe particularmente, mas também admito que não me envergonho desta minha característica (estive quase para dizer qualidade, mas não gosto de me gabar, muito). É apenas um facto com o qual aprendi a viver. Mas acreditem que a ginástica que por vezes tenho que fazer com o tempo é digna da prestação da romena Catalina Ponor nos Jogos Olímpicos de Atenas.


Normalmente tenho o cuidado de não impor o meu gosto e o meu hábito aos meus amigos, a maioria dos quais já esboça aquele sorriso condescendente que se costuma fazer aos loucos sempre que lhes digo que vou ou fui ver um filme. Felizmente, o meu gosto ecléctico permite-me ainda ir tendo companhia nos (poucos) bons blockbusters que vão havendo. Mas as minhas idas ao King, Quarteto, Nimas e ciclos “esquisitos” são na sua generalidade feitas a solo.


Não me queixo. Afinal de contas, o acto de ir ao cinema e ver um filme não exige de facto companhia, e eu não sou de muitos comentários no durante. O que me custa por vezes é, no depois, não ter com quem partilhar as minhas opiniões sobre alguns diamantes que me caiem no colo no meio naquelas minas escuras. Ou para me lamentar das raras jóias falsas que compro nos meus extremos alternativos. Mas acho que agora tenho o meio que me permite isso mesmo: confessar os êxitos e os falhanços nesse longo caminho de descoberta.


Eu sou aquela que está no meio da sala num fim de tarde de um dia de semana, que não come pipocas, que manda calar os que estão a falar para ouvir os silêncios projectados, que se levanta só quando termina o genérico final, que já leu e volta a ler o que se escreveu sobre o filme, que revê as fichas técnicas na Internet para tirar dúvidas sobre a cinematografia do realizador e dos actores, que acrescenta cada filme a uma base de dados ordenada alfabeticamente (também essa mania, a das listas...).


A última vez que fui ao cinema foi a 24 de Agosto, ou seja, há treze dias atrás. Fiz uma sessão dupla no cinema Nimas, o que é um feito especialmente doloroso durante a semana. Mas essa dose daria normalmente para me aguentar no máximo seis/sete dias. Por isso, os sintomas de ressaca já se começam a fazer sentir: desconcentração, alienação, ansiedade, insónia, tonturas, falta de apetite. O que, aliado ao stress de excesso de oferta, começa a colocar-me num estado de angústia e apreensão que só com duas horas fechada numa sala escura pode ser curado.


Há pessoas que me aconselham a arranjar uma televisão com ficha scart onde consiga finalmente ligar o aparelho de DVD que um grupo de amigos me ofereceu no meu aniversário e me converta aos home-movies. O meu sofá até é confortável e poderia assim aproveitar e riscar alguns filmes de uma interminável lista de pendentes antigos que me dá vergonha de referir (há umas lacunas imperdoáveis, mas isso fica para outra auto-crítica). Mas há algo no som suave de uma bobina a rodar atrás de nós, no cheiro de vidas passadas deixado na sala, na atenção concentrada dos olhos num ecrã que cobre todo o nosso horizonte visual, que é insuperável. E as inovações tecnológicas têm, sem dúvida, acrescentado valor a essa experiência, captando os nossos sentidos no limite da sua exigência e tele-transportando-nos para um mundo que é o nosso durante um breve espaço de tempo.


Sinto falta disso. De me perder na vida de outras pessoas, mesmo que fictícias, de me colocar na sua pele, de me identificar com umas e de repudiar outras, de trautear bandas sonoras e de ficar até ao fim para saber quem cantava aquela música que me fez pele de galinha, de decidir ir para a casa a pé, mesmo à chuva, para pensar no que acabei de ver e para responder às questões que ficaram no ar.


O cinema já me deu paz, já despertou a minha raiva, arrancou-me lágrimas e ofereceu-me sorrisos, já me fez-me pensar e, curiosamente, também parar de pensar, e continua, a cada dia, a surpreender-me. É de tudo isso que sinto falta.


Por isso, acho que hoje vou ao cinema.





realizado por Rita às 22:19
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